21/02/2012

Pensar de um jeito e viver de outro

O que vai abaixo colhi de discussões recentes de que participei no Facebook. O tema é velho, parece-me uma múmia do século XIX passeando em pleno século XXI, mas nos últimos dias apareceu demais na minha timeline. Só participei de uma das discussões por insistência de um amigo. Considero contraproducente tocar nesses temas quando quem debate pensa ser teólogo e não é nem meio filósofo.

Reciclo aqui essas considerações — a seu modo soltas e com cara de aforismos — como um complemento aos três motivos pelos quais as pessoas têm crenças sem professar religião.

***

A fé precisa de uma instituição?

1. Em defesa de uma “fé sem religião”, muita gente vai afirmar que qualquer instituição é perversa pelo simples fato de ser instituição. Algo como: os pais são necessariamente opressores dos filhos porque são os cabeças da instituição familiar.

2. Na mesma linha, muitas pessoas defendem bons valores, mas ao mesmo tempo fazem de tudo para negar a origem eclesial desses mesmos valores.

3. Sem dúvida, o que precisamos é trabalhar em conjunto, crentes e descrentes, em prol de valores comuns. E, contudo, há gente sem fé que se desvela pelos outros, assim como gente com fé que se omite.

4. Com relação às tais omissões, porém, não faz sentido apelar a pretensos erros do passado como defesa ou a título de humildade. Que erros foram esses? Com que critério se poderia afirmar que tal ou qual episódio do que se chama história da Igreja foi um “crime histórico”?

5. Em outro plano, porém, devemos exigir respeito e melhorar o conhecimento que se tem da Igreja. A grosseria é proporcional à ignorância.

6. É urgente ajudar as pessoas a perceberem que uma fé sem suporte institucional não é fé, mas fabricação ideológica a serviço dos próprios interesses egoístas. A fé a herdamos, recebemos, transmitimos. Quem cria a própria fé à margem da Igreja é como um psicótico que transforma as próprias alucinações em fragmentos de realidade.

Por que fé sem suporte institucional não é fé?

7. Uma fé construída pelo próprio interessado, ao seu bel-prazer, é um evangelho falso, pois o assim "crente" padece do orgulho intelectual de decidir o que é certo e o que é errado.

8. Essa é mais uma manifestação do individualismo ocidental e do rechaço da tradição. Tal atitude inflacionou-se especialmente com a Reforma protestante, que reduziu a fé a mera confiança (fé fiducial), de modo que tanto faz no que você crê, desde que você confie cegamente.

9. É evidente que essa falsificação da fé só produziu efeitos nefastos: cada um interpreta a revelação a seu gosto, cada um renega a tradição segundo suas conveniências. Para piorar, os descrentes ficam com a impressão, aliás justa dentro desse contexto, de que a fé é um produto da sensibilidade humana e que, como tal, não seria racional nem objeto de especulação ou aprofundamento científico.

Não seria possível acreditar por si mesmo numa força maior?

10. Ao longo dos seus 2000 anos, a Igreja sempre transmitiu um conteúdo de fé (verdades dogmáticas e princípios morais), ao qual se dá assentimento por se confiar em quem o revela (Deus) e em quem o transmite (a Igreja). Isso não tem nada a ver com sentimentos ou impressões pessoais. A fé, portanto, se recebe da comunidade eclesial, não é um ato meramente pessoal.

11. Aqueles, porém, que pretender crer à margem da Igreja são extremamente contraditórios e pouco razoáveis, pois afirmam dar crédito a meros sentimentos e impressões acerca de assuntos gravíssimos para a vida e para a morte. Na verdade, não creem em nada, mas repetem um discurso vazio que finge isenção mas só demonstra superficialidade frívola.

12. É evidente para mim ser impossível separar a fé da religião, pois a fé sem o suporte da mediação externa não pode ser fé. A fé construída pelo próprio interessado é autorreferencial. Em outras palavras: como se pode prestar fé a si mesmo?

Isso não é mera questão de definições?

13. Sem dúvida, em tudo isso há divergência nas definições. Contudo, vários conceitos cristãos multisseculares têm sido deturpados e depois utilizados contra a Igreja. Assim, ela recebe críticas por coisas que não propõe. A fé é um deles.

14. Se eu não fosse católico, dificilmente seria alguma coisa, pois não conseguiria pautar minha vida por uma força cega que nem saberia se existe. Compreendo que o homem moderno goste de se dizer crente em algo transcendente, mas convenhamos que isso em nada o faz viver diferentemente dos ateus.

17/02/2012

Vida inteligente antes de Kant

Um amigo meu, professor de direito, contou-me como sentiu-se mal num debate de que participou na UniRio. Um dos debatedores — cujas ideias eram inconsistentes, ligeiras, imorais e pouco inovadoras —, a fim de desmoralizar meu amigo, acusou-o de ser kantiano.

A questão é que meu amigo não é nada kantiano. Ele simplesmente defende as virtudes.

Uma possível conclusão é que, por incrível que pareça, há quem pense nunca ter havido filosofia antes de Kant. Mas será possível que as pessoas só entendam as virtudes em termos de imperativos categóricos?

Virtude não é dever, é liberdade. Por isso, moral é a arte de viver.

Mas há quem pense que moral é viver sem arte. E que arte é ser imoral. De fato, (pouco) antes de Kant existiu o Marquês de Sade.

Quando o curador é o diabo, meu caro, a entrada pode ser gratuita, mas a saída…

12/02/2012

Abrace o mundo quatro vezes

Para alcançar o mundo, e virá-lo de cabeça para baixo quando você chegar lá.

1. Seja mais semelhante ao mundo que você quer alcançar. O alcance nasce da identificação. Num mundo em que as pessoas têm tentáculos, seus braços devem ser fortes.

2. Personalize sua audiência. Fale a cada um individualmente, sem cópia oculta. Se você falar para si, suas palavras falarão para cada qual como se fosse só para ele. Não fale de si. Mas fale para como você é, para como você foi ou para como você quer ser. Quanto mais específico você for, mais universal será.

3. Deixe as pessoas abraçá-lo primeiro. Existem dois tipos de solidão: a que o isola e a que o abre. A primeira é orgulhosa, a segunda faz parte da via de mão dupla do diálogo. Reciprocidade é inimiga da arrogância, das cobranças, do autoritarismo.

4. Conquiste uma couraça de confiança. Não espere nada, saiba ouvir, transforme o silêncio em eloquência. Aqui é questão de tempo. Aguente, pois quem se cansa desiste.

O mundo parece grande e você pequeno. Mas o grande momento de virar o jogo está nas suas mãos.

Diga-me uma coisa: quando chegar lá, em que você mudará o mundo?

08/02/2012

Derrume três muros do gueto cristão

Vimos três rotas de fuga, ou melhor, três pontes para fora do gueto. Nesta postagem, vejamos três insights cuja luz faz-se necessário difundir para iluminar essas pontes. As pontes equivalem ao “como” comunicar; os insights, a “o quê” comunicar.

Falsa dicotomia entre razão e fé

A primeira coisa a comunicar é íntima relação existente entre fé e razão.

Por um lado, é preciso recuperar o vocabulário externo, não ser um outsider epistêmico ao falar da fé. Por outro, esmagar o clichê renascentista como uma barata; restaurar a noção de religião, que não está divorciada do humanismo.

Índole pública da religião

A praça pública da razão não é espaço para duendes, bruxas nem vampiros. Mas hoje praticamente dá na mesma ser um feminista verde ou um gnomo misógino, já que as minorias substituíram as instituições. De fato, as instituições têm recebido má acolhida: não se costuma dizer que toda autoridade é burra?

A Igreja explode esse esquema, já que defende uma minoria institucionalmente. Mais do que nunca, é preciso deixar clara a dimensão social e o impacto público da existência cristã.

Encontrei uma curiosa lista de impressões acerca da Igreja, cuja procedência é duvidosa, mas que representa bem a confusa deformação da opinião pública atual. Transcrevo-a para que sirva de referência, para deixar constância de quanto falta comunicar, e para ficar claro que as críticas são o espelho da própria miséria moral e intelectual:
  • Clube social cheio de regras (web design)
  • Não é a casa de Deus (body piercing)
  • Um simples local (empresário)
  • Não sei, nunca frequentei (modelo gay)
  • Máquina de fazer dinheiro (jornalista)
  • Problema (tatuadora lésbica)
  • Lugar da ignorância (arquiteta feminista)
  • Sistema carcerário (ex-presidiário)
  • Último lugar a se frequentar (ilusionista viciado em pornografia)
  • Onde se perde a vida (garoto de programa)
  • Não preciso dela para ter Deus (artista plástica viciada em remédios)
  • Sistema político disfarçado (artesã bissexual)
  • Onde Jesus não está (ex-participante de rede jovem)
  • Onde o extremismo reina (pai solteiro)
  • Comércio espiritual (lésbicas amasiadas)
  • Buuuuu (bancária alcoólatra)
  • Governo de uma religião (ilustrador bipolar)
  • Fanatismo (professor gay)
  • Nada contra nem a favor (casal praticante de swing)
  • Onde um mito prevalece (tatuadora com síndrome de pânico)

Consequências da liberdade religiosa

A liberdade mais fundamental é a religiosa. Mas isso não equivale a ter orgulho de se apresentar como católico em espaço público nem a criar uma militância sagrada ao lado de outros partidos.

O que mais importa é ter liberdade para fazer publicamente uma profunda proposta religiosa positiva e aberta. Imitatio Dei coercitiva é um oximoro, Deus não está interessado nisso, mas na dignidade de cada pessoa humana, charneira entre os de fora e os de dentro da Igreja.

Portanto:
  1. existe o direito de se dizer não a Deus;
  2. existe um compromisso religioso em prol do homem;
  3. deve-se usar a língua de César na vida pública, que é a linguagem da persuasão e da democracia;
  4. deve-se denunciar a falsa identificação entre laicidade e neutralidade;
  5. deve-se garantir tratamento semelhante para o ensino secular e para o religioso.

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